Meio século de fé e arte

April 10, 2017

 

Representação mais grandiosa do calvário bíblico em Pernambuco, a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém atesta a força da história religiosa conhecida e contada há dois mil anos

 

Os últimos momentos de Jesus Cristo estão impregnados de tal forma na sociedade ocidental que milhões de pessoas mantêm a tradição de ouvir essa história todos os anos. Os momentos decisivos do personagem histórico e divino foram a matéria-prima do sonho das famílias Mendonça e Pacheco, que completam 50 anos à frente de seu projeto mais ambicioso: a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém. O evento começa neste sábado e prossegue até o Sábado de Aleluia, no próximo dia 15, com novos atores e uma perspectiva otimista de continuidade. 

As muralhas de pedra que cercam o maior palco ao ar livre do mundo e se destacam no distrito de Fazenda Nova, em Brejo da Madre de Deus, já viram de tudo em meio século. Convidados ilustres já entraram por suas portas, atores conhecidos nacionalmente se revezaram em seus papéis principais - fora os artistas pernambucanos que participam todos os anos. Desta vez, os atores que fazem parte do elenco principal são Rômulo Arantes Neto (Jesus Cristo), Letícia Birkheuer (Maria), Adriana Birolli (Maria Madalena), Joaquim Lopes (Pilatos), Raphael Vianna (Herodes), Aline Riscado (Herodíades) e Jesus Luz (João). Os ensaios com o grupo completo começaram na semana passada.

Em uma história na qual a graça está justamente no caráter praticamente imutável, as inovações do espetáculo estão nos detalhes. Em 2017, uma das novidades está na entrada de Herodes e Herodíades, que virão em uma carruagem de 4,8 metros conduzida por 18 escravos. A entrada do governador da Judeia Pôncio Pilatos terá uma plataforma por onde a biga vai passar, nivelada ao piso do fórum. É uma mudança em comparação à edição do ano passado, quando a biga passava pelo piso mais baixo do teatro. Este será o momento no qual Jesus será levado para o julgamento. A reforma do Sinédrio e figurinos mais incrementado para Pilatos, Herodes e Herodíades estão entre as outras modificações para os 50 anos da peça.

Neste ano, o elenco principal também foi totalmente modificado, a começar pelo protagonista. Rômulo Arantes Neto substitui Igor Rickli, que viveu o Jesus em 2015 e 2016. “Isso é diferente de tudo, é um paraíso. A natureza é linda, abundante, e esse lugar tem uma energia muito especial. Passei uma semana aqui no fim do ano passado, para me preparar, e foi incrível. Nunca me imaginei interpretando Jesus, esta é uma chance muito pequena de acontecer para um ator, ainda mais falando para 8 mil, 10 mil pessoas”, afirma. 

De acordo com Rômulo, aceitar um papel como este também tem o objetivo de fazer o público repensar suas próprias vidas e refletir sobre a importância de uma figura como Jesus Cristo. “Não tenho uma religião específica, mas sou muito conectado com uma força maior. Vejo que as pessoas estão muito desconectadas. A internet, a política, a economia neste mundo capitalista, a falta da natureza, algumas músicas que fazem sucesso, tudo isso faz a gente se distanciar do perfeito, que é a natureza. Se começarmos a olhar para dentro, a procurar nossa essência, vamos nos conectar com Jesus. Cabe a cada um de nós buscar isso”.

Já a atriz Letícia Birkheuer, que faz pela primeira vez a Maria, se impressionou com a magnitude da estrutura de pedra de Nova Jerusalém. “Tanto eu quanto outros atores temos a sensação de voltar no tempo. Fica muito mais real para nós não ter a cidade por perto, não ter distrações, pessoas de fora, e isso faz todo o elenco ficar mais próximo do personagem, até porque tudo é muito grande. O ambiente propicia essa entrega. Logicamente, o sentimento vem de dentro, mas, como atriz, percebi uma necessidade de exagerar nos movimentos, senão você não é visto. Fiz uma preparação de um dia com a preparadora de atores Fátima Toledo para a gente desvendar a forma de falar essas palavras com a força e a intenção corretas”.

Além da questão técnica, a força sentimental necessária para representar um arquétipo poderoso de mãe como Maria foi outra preocupação de Letícia. “Tenho um conhecimento da história de Jesus por ter sido criada na religião católica e o próprio texto me trouxe mais perguntas. O que me chama mais a atenção na personagem é a força com a qual ela questionou Deus, as pessoas, a política. Ela foi uma mulher muito perseverante, batalhadora. Maria ensina a acreditar, a pedir, a agradecer e isso pode ser passado em casa. Foi importante, por exemplo, eu vir fazer este papel depois de ter sido mãe. Este é um amor puro, incondicional, em seu poder máximo”.

 

Fonte

Compartilhar no Facebook
Compartilhar no Twitter
Please reload

Posts Em Destaque

RODRIGO CANDELOT FALA SOBRE “ÉDIPO E O REI, UM ACIDENTE MITOLÓGICO”

June 1, 2018

1/6
Please reload

Posts Recentes